quinta-feira, 17 de maio de 2007

Poema do Menino Jesus

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Num meio-dia de fim de Primavera
Eu tive um sonho como uma fotografia:
Vi Jesus Cristo descer à Terra.
Ele veio pela encosta de um monte,
Mas era outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
A arrancar flores para deitar fora,
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Ele tinha fugido do céu.
Era nosso demais pra fingir-se
De Segunda pessoa da Trindade.

Um dia que Deus estava dormindo
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi até a caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro Ele fez com que ninguém soubesse que Ele tinha fugido;
Com o segundo Ele se criou eternamente humano e menino;
E com o terceiro Ele criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois Ele fugiu para o Sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje Ele vive na minha aldeia, comigo.
É uma criança bonita, de riso natural.
Limpa o nariz com o braço direito,
Chapinha nas poças d'água,
Colhe as flores, gosta delas, esquece.
Atira pedras aos burros,
Colhe as frutas nos pomares,
E foge a chorar e a gritar dos cães.
Só porque sabe que elas não gostam,
E toda gente acha graça,
Ele corre atrás das raparigas
Que levam as bilhas na cabeça
E levanta-lhes a saia.
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A mim, Ele me ensinou tudo.
Ele me ensinou a olhar para as coisas.
Ele me aponta todas as cores que há nas flores
E me mostra como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
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Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro.
Vivemos juntos os dois
Com um acordo íntimo,
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer nós brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa.
Graves, como convém a um Deus e a um poeta.
Como se cada pedra
Fosse todo o Universo
E fosse por isso um perigo muito grande
Deixá-la cair no chão.
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Depois eu lhe conto histórias das coisas só dos homens.
E Ele sorri, porque tudo é incrível.
Ele ri dos reis e dos que não são reis.
E tem pena de ouvir falar das guerras
E dos comércios.
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Depois Ele adormece e eu
O levo no colo para dentro da minha casa,
Deito-o na minha cama, despindo-o lentamente,
Como seguindo um ritual todo humano
E todo materno até Ele estar nu.
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Ele dorme dentro da minha alma.
Às vezes Ele acorda de noite,
Brinca com meus sonhos.
Vira uns de perna pro ar,
Põe uns por cima dos outros,
E bate palmas, sozinho,
Sorrindo para os meus sonhos.
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Quando eu morrer, Filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno,
Pega-me Tu ao colo,
Leva-me para dentro a Tua casa.
Deita-me na Tua cama.
Despe o meu ser, cansado e humano.
Conta-me histórias caso eu acorde
Para eu tornar a adormecer,
E dá-me sonhos Teus para eu brincar.

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Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?


Alberto Caeiro - Heterônimo de Fernando Pessoa

1 comentário:

Carlos disse...

Em minha filosofia e em minha religião não há outra maneira de ver e de sentir, esse é o verdadeiro Menino Jesus.
Prof.Carlos