sábado, 2 de setembro de 2006

Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;
Guarda essas garras devagar,
E nos teus belos olhos de ágata e aço
Deixa-me aos poucos mergulhar.

Quando meus dedos cobrem de carícias
Tua cabeça e o dócil torso,
E minha mão se embriaga nas delícias
De afagar-te o elétrico dorso,
Em sonho a vejo. Seu olhar,
profundo
Como o teu, amável felino,
Qual dardo dilacera e fere fundo,
E, dos pés a cabeca, um fino
Ar sutil, um perfume que envenena
Envolvem-lhe a carne morena.

Charles Baudelaire

Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em um cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é,
iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela,
isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara
e declama um poema: Para guardá-lo: Para que ele, por sua vez,
guarde o que guarda: Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso se escreve um poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cícero

Visita-me os olhos
Os lábios
O corpo
A alma
Que tento passar à ti
Quando sugas a minha língua
Escraviza
Meu olhar num piscar
Avisa que sua vista
Me visita

E se a saída for mais que um nome
Algo além da entrada
O começo,
A chegada
O final,
sinal de que tudo é questão de tempo
Inclusive a distância
Na constância do Adeus.
Chá de Rosas

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Deixo poemas falarem pelo meu corpo
Roçar-me
Até sangrar de vermelho
Toda e qualquer página em branco
Ditando em meu corpo as linhas do amor

O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples
e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem
os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira

"Ser cigano é ter uma carne, uma alma, paixões, uma pele,
instintos e desejos outros;
é ver o mundo com olhos, com música no sangue, uma altivez selvagem,
a alegria misturada com lágrimas; a tristeza, a vida e o amor desconfiados;
é evitar a rotina e a norma que castram;
é, graças ao canto, embriagar-se de vinho e de beijos;
é transformar a vida em uma arte cheia de capricho e de liberdade;
é recusar o jugo da mediocridade;
é tudo apostar num único lance; é saborear, se dar, experimentar.
É viver.
Isso é Tudo."
Chá de Rosas

"a saudade é uma colcha velha
que cobriu um dia
numa noite fria nosso amor em brasa"

Zeca Baleiro


"Deus existe até mesmo onde não há".

Guimarães Rosa - Grande Sertão Veredas

“É preciso que haja alguma coisa
alimentando meu povo
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança.
É preciso que alguma coisa atraia
a vida
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminhos.
É preciso que haja algum respeito,
ao menos um esboço
ou a dignidade humana se afirmará
a machadadas”.

Torquato Neto