domingo, 24 de dezembro de 2006

Quando olho para mim não me percebo


Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei
Tal qual me julgo verdadeiramente?

Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Álvaro de Campos

sábado, 23 de dezembro de 2006


Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato
Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato
Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato
Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato
Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato
Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato
Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato
Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato
Alexande O'Neill

Os Sonhos

De repente acordo e vejo bem perto
De mim, colado quase ao meu, desnudo,
Também, cansado, inerte no veludo,
O corpo dela, sem censura, aberto
O coração, de sentimento incerto,
Às vezes, mesmo, indiferente a tudo.
De tanto vê-la assim me desiludo
E me entristeço sempre que desperto.
Sem esperança de acordar com ela,
Eu fico preso ao meu amor constante
E paro, e penso e sinto, num instante,
Quando ela dorme, assim, imóvel, bela
Eu dos seus sonhos estou tão distante,
Que nem parece que estou junto dela.

Abdias Sá

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Aurora Boreal


O que vejo
não passa de um lindo arco-íris no céu,
fugaz.
Sedutor espectro de luz
que um conjunto de circunstâncias faz
e que o acaso produz.
Assim como o acaso genético que sou,
à deriva em um mar de acasos
em que me decomponho
ao vento dos eventos, o acaso em que, no último momento,
morro,
fugaz.
Posso escolher a cor lilás
como minha preferida,
embora seja azul a mais querida,
mas isso não altera em quase nada
o meu peso.
Há que ver-se, um dia,
uma aurora boreal
de uma noite sem fim,
iluminar o ocaso,
varrer, em labaredas,
o céu cruel do acaso.

Maria do Carmo Vieira

quinta-feira, 26 de outubro de 2006


"Quando se é ponteiro de segundos,
é preciso compreender e aceitar,
que o ponteiro de minutos, trabalhando na aparência,
sessenta vezes menos,
colha os mesmos frutos,
chegue aos mesmos resultados."

B. e P.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Se você espera por mim...
Então eu virei até você...
Enquanto eu viajava tanto...
Eu sempre mantive um lugar pra você em meu coração...
Se você pensa em mim...
Se você sente falta, uma vezinha...
Eu voltarei pra você...
Eu voltarei e preencherei esse espaço no seu coração...
Lembrando...
Seu toque...
Seu beijo...
Seu abraço quente...
Eu acharei meu caminho até você...
Se você estiver esperando...
Se você sonha comigo, como eu sonho contigo...
Num lugar quente e escuro...
Num lugar onde eu posso sentir as batidas do seu coração...
Juntos novamente...
Eu me sentirei tão bem...
Nos seus braços...
Onde todas as minhas viagens terminam...
Se você puder prometer que isso você pode manter...
Eu voltarei...
Se você esperar e disser...
Que tem um lugar pra mim, no seu coração...

B. e P.

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

As palavras são os trocos do pensamento.
Há faladores que nos pagam em moedas de dez tostões.
Outros, pelo contrário dão-nos peças de ouro.
A.D.

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

O sabiá do sertão quando canta me comove,
passa três meses cantando e,
sem cantar passa nove.
Porque tem a obrigação...
De só cantar quando chove.

Cordel do Fogo Encantado

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem


Sophia Andresen

Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha,
Porque alta vive.

Fernando Pessoa