domingo, 11 de novembro de 2007
O poeta beija tudo, graças a Deus
E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade
E diz assim:
"É preciso saber olhar..."
E pode ser, em qualquer idade,
Ingénuo como as crianças,
Entusiasta como os adolescentes
E profundo como os homens feitos
E levanta uma pedra
=
Escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás
E perde tempo (ganha tempo...) a namorar uma ovelha
E comove-se com cousas de nada:
Um pássaro que canta
Uma mulher bonita que passou
Uma menina que lhe sorriu
Um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino
Um bocadinho de Sol depois de um dia chuvoso
E acha que tudo é importante
E pega no braço dos homens que estavam tristes
=
E vai passear com eles pelo jardim
E reparou que os homens estavam tristes
E escreveu uns versos que começam desta maneira:
"O segredo é amar..."
Sebastião da Gama

Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha reta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens que ser real
Por isso não percas nunca o teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol, tua luz, teu alimento.
Sophia de Mello Breyner Andresen
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
=
Creio no mundo como num malmequer,
Creio no mundo como num malmequer,
=
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
=
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
=
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
=
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Fernando Pessoa
domingo, 4 de novembro de 2007
Anjo

Dois centímetros cúbicos de nuvem.
Duas lágrimas de criança:
uma derramada em dia de aniversário,
outra no medo do trovão.
Três colheres de açúcar.
Uma pitada de três dedos de pó de ouro.
Duas gotas de lilás.
Um miligrama de cauda de cometa.
Pronto.
Diz-se que essa é a receita básica para se criar um anjo.
Dizem que muitos tentaram criá-los a partir daí.
Não conseguiram pela falta do sopro. O sopro d'Ele.
E Ele, depois do sopro,
põe tudo dentro das mãos em concha, e joga para o alto.
Dois dias depois eles aparecem.
Prontinhos. Sentadinhos em flocos de algodão doce.
Sorrindo banguelas e chupando o polegar,
mania que acaba quando nascem as asinhas,
três séculos depois, na adolescência.
Fase na qual está o nosso anjo,
que tropeça nas estrelas e se esborracha
em nuvens mais pesadas que o ar.
E que grita:
- Merda! (ops!!)
enquanto levanta, sacode as gotículas e dá a volta por cima.
André Gonçalves
sábado, 3 de novembro de 2007

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas terras do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projetou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.
Fernando Pinto do Amaral
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
Qual o Assunto que Mais lhe Interessa?
Qual o assunto que mais lhe interessa?
Além da vida in vitro feita nas coxas
E vivida às pressas
Qual o assunto que mais lhe interessa?
A mais-valia da morte
A última sentença
A violência nas ruas
O bioterrorismo
A soja transgênica
Clonagem da mente
Dos órgãos vitais
A nova ciência
Moral decadente
Tradição milenar
Outra tendência
Qual o assunto que mais lhe interessa?
Suicídio, livre arbítrio
Amor consentido, eutanásia
A divida congênita
O quinto partido, o tempo das máquinas
Monarquia playback, a república inventa
O eclipse lunar, a decadência moral
A calota polar, o império dos egos
O vidente cego, o cachimbo de Édipo
A paixão de Romeu, colapso dos mares
Crianças sem lares, a ausência de Deus...
Qual o assunto que mais lhe interessa?
A assembléia dos loucos, o juízo dos lobos
A vontade dos céus
A escala econômica em que o crime compensa
Qual o assunto em que mais você pensa?
Sexo, amor, culpa ou inocência
A dieta do Papa, o segredo de Fátima
A última penitência
Qual o assunto em que você mais pensa?
Qual o assunto que mais lhe interessa?
Qual o assunto em que mais você pensa?
Bom dia, Vietnã
Boa noite, Badgá
Adeus, Sherazade
Qual o assunto que mais lhe interessa?
Qual a verdade em que mais você pensa?
O fim da natureza
E o final da História
Glória, glória, glória,
Apenas uma canção invento agora, um poema
A madrugada é silêncio, a dor acalenta
Esquece o início de tudo e o fim dos tempos
Deita no colo de tua amada
Onde da misteriosa expansão do nada
O universo se alimenta...
Roberto Mendes e Capinam
Voz de Elba Ramalho
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