quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Desordem

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite,
já não se escondem;
pisam nas flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Eduardo Alves da Costa

Olho, e as coisas existem.
Penso e só existo eu.

Alberto Caeiro

Pensamento vem de fora
E pensa que vem de dentro,
Pensamento que expectora,
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
Tormento a todo momento.
Por que é que eu penso
agora sem o meu sentimento?
Se tudo que comemora
Tem o seu impedimento,
Se tudo aquilo que chora
Cresce com seu fermento;
Pensamento, dê o fora,
Saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
Desapareça no vento.
E não jogarei sementes
Em cima do seu cimento.
Arnaldo Antunes

Contigo aprendi que nenhuma tarde
envelhece sem antes ter sido manhã.

No retrato que me faço
traço a traço
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore
ás vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão
e, desta lida, em que busco
pouco a pouco
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança
Corrigido por um louco!
Mário Quintana

terça-feira, 22 de agosto de 2006

O desafio
Da poesia
Não é escrevê-la
Com magistreza
Ou com maestria
Mas é, ao lê-la,
Compreendê-la
Em sua multiplicidade
E em sua magia.
Chá de Rosas

Sou tanto e ao mesmo tempo sou tão pouco.
Me faço me desfaço, me pinto de várias cores.
Das cores do arco-íris.
A.D.

Quando veio,
Mostrou-me as mãos vazias,
As mãos como os meus dias,
Tão leves e banais.
E pediu-me
Que lhe levasse o medo,
Eu disse-lhe um segredo:
"Não partas nunca mais"

Abraçou-me
Como se abraça o tempo,
A vida num momento
Em gestos nunca iguais.
E parou,
Cantou contra o meu peito,
Num beijo imperfeito
Roubado nos umbrais.

E partiu,
Sem me dizer o nome,
Levando-me o perfume
De tantas noites mais.
E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,
E eu não sei quem te perdeu.

Pedro Abrunhosa

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento
Mas ninguém diz
violentas as margens que o comprimem.

Bertold Brecht

One year Of Love

Só um ano de amor
É melhor que uma vida inteira de solidão.
Um momento sentimental
Em seus braços
É como uma estrela cadente
Atravessando o meu coração.
É sempre um dia chuvoso sem você,
Sou um prisioneiro do amor, dentro de você
Estou caindo aos pedaços ao seu redor
Meu coração grita para o seu:
"Estou sozinho, mas você pode me salvar!"
Minha mão se estica para encontrar a sua,
Estou com frio
Mas você acende o fogo dentro de mim.
Meus lábios procuram os seus,
Estou com fome do seu toque
Há tanta coisa que ficou sem ser dita
É tudo o que eu posso fazer, me entregar;
no momento, só me entregar.
E nunca ninguém me disse
Que o amor pode machucar tanto,
Ah, sim, machuca!
E a dor fica tão perto do prazer!
E tudo o que eu posso fazer é me entregar
Ao seu amor
Me entregar ao seu amor
Só um ano de amor,
É melhor que uma vida inteira de solidão,
Um momento sentimental
Em seus braços
É como uma estrela cadente
Atravessando o meu coração.
É sempre um dia chuvoso sem você,
Sou um prisioneiro do amor, dentro de você
Estou caindo aos pedaços ao seu redor
E tudo o que eu posso fazer é me entregar.
Queen
Composição: John Deacon