sábado, 17 de novembro de 2007

Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo
que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você,
eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção
daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando
eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam
e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas,
mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver,
e desamar era não mais conseguir ver, entende?
Caio Fernando Abreu
sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Simpatia - é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.
Simpatia - são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.
São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.
Simpatia - meu anjinho,
É o canto do passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d'Agôsto,
É o que m'inspira teu rosto...-
Simpatia - é - quase amor!
Casimiro de Abreu
Tô relendo minha lida,
minha alma, meus amores
Tô revendo minha vida,
minha luta, meus valores
Refazendo minhas forças,
minha fonte, meus favores
Tô regando minhas folhas,
minhas faces, minhas flores
Tô limpando minha casa,
minha cama, meu quartinho
Tô soprando minha brasa,
minha brisa, meu anjinho
Tô bebendo minhas culpas,
meu veneno, meu vinho
Escrevendo minhas cartas,
meu começo, meu caminho
Estou podando meu jardim
Estou cuidando de mim...
Vander Lee
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
O poema me levará no tempo

Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê
O poema
Alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar
Com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo
Sophia de Mello Breyner Andersen
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