segunda-feira, 16 de julho de 2007
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.
O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:
ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.
Ele quis morrer para arrasar a morte
e voltar.
Affonso Romano de Sant’Anna
domingo, 15 de julho de 2007
Do Bexiga a Brodway
Nascido em São João da Boa Vista, no interior paulista, Geraldo Filme (1928 - 1995) veio pequeno para a Capital. O pai tocava violino, mas foi com a avó que conheceu os cantos de escravos que influenciaram sua formação musical.
Sua mãe tinha uma pensão nos Campos Elíseos e fazia marmitas que o menino Geraldo entregava em toda a região. Na Barra Funda, bairro vizinho, passava um bom tempo nas rodas de samba e tiririca (capoeira) que os carregadores improvisavam, no Largo da Banana.
Compôs o primeiro samba (Eu Vou Mostrar) com 10 anos de idade. Sua mãe fundou o primeiro cordão carnavalesco formado só por mulheres negras, que futuramente iria se transformar na Escola de Samba Paulistano da Glória
Geraldo tem o nome ligado à história do Carnaval paulista. Respeitado e querido por todas as escolas, marcou presença na Unidos do Peruche, para quem compôs sambas-enredo, mas é lembrado principalmente por sua ligação com a Vai-Vai. O samba "Vai no Bexiga pra Ver" tornou-se um hino da escola, e "Silêncio no Bexiga" homenageia um célebre diretor de bateria da Vai-Vai, o Pato Nágua. Com o samba-enredo “"Solano Trindade, Moleque de Recife" levou a escola ao título de campeã.
Nos últimos anos de vida trabalhou na organização do Carnaval na cidade de S. Paulo, tornando-se uma referência da cultura negra paulistana. Um aspecto pouco estudado de sua obra é a releitura do samba rural paulista ("Batuque de Pirapora", "Tradições e Festas de Pirapora"), que trazem elementos dos jongos, vissungos e batuques ensinados por sua avó. Deixou poucas gravações, e boa parte de sua obra continua desconhecida. O LP “Geraldo Filme”, gravado em 1980, demorou 23 anos para ser lançado em CD (Eldorado, 2003).
Uma importante gravação de cunho documental e histórico, O Canto dos Escravos, com Clementina de Jesus e Doca da Portela (Eldorado, 1982), também já pode ser encontrada em CD. A gravação do programa Ensaio, realizada em 1982, é outro documento valioso sobre Geraldo Filme (SESC/ TV Cultura)
Suas composições podem ser ouvidas em gravações de Beth Carvalho (BC Canta o Samba de São Paulo), Osvaldinho da Cuíca (História do Samba Paulista), grupo A Barca, entre outros. Existe em vídeo um documentário sobre sua obra, realizado por Carlos Cortez, uma co-produção da TV Cultura, CPC-Umes e Birô da Criação.
Texto de Daniel Brazil
Cole Porter nasceu em Peru, Indiana, no dia 9 de Junho de 1891. Filho de Samuel Fenwick Porter e Kate Cole.
O seu pai era farmacêutico mas a sua mãe era filha de um dos homens mais ricos do Indiana (devido a negócios do carvão e madeira), James Omer Cole, que contribuía para que a família Porter tivesse um nível de vida elevado.
Aos seis anos, Cole começou a ter aulas de piano e de violino, tendo abandonado os estudos do último por preferir o primeiro.
Aos dez anos, Cole compôs a sua primeira música – “Song Of The Birds”- um tema cuja letra tinha sido feita pela sua mãe, sempre apoiou bastante o interesse do filho pela música, tendo mesmo financiado os seus precoces projetos musicais.
Antes de entrar em Yale, em 1913, Cole Porter estudou na Academia de Massachusetts. Foi porém em Yale que a sua carreira de compositor ganhou forma. Aí escreveu vários trabalhos e mais de 300 músicas para várias fraternidades e organizações estudantis.
Nesse período conhece Linda Lee Thomas, os dois tornam-se bastante amigos e a 19 de Dezembro de 1919 assumem o matrimónio. Considerada por muitos sua musa inspiradora.
Chegando a Brodway passa a ser admirado e respeitado. Frank Sinatra é um dos muitos que o considerava "O Senhor da Poesia Cantada" com seu estilo refinado.
Foi então, em 1928, que chegou um dos seus maiores trabalhos. "Let's Do It, Let's Fall In Love", que fazia parte do musical “Paris”, tornou-se um tremendo êxito e finalmente destacou Cole Porter como um dos mais importantes compositores vivos.
Em 1937 Porter sofre um acidente enquanto cavalgava, fraturando ambas as pernas. Os médicos sugeriram que as pernas fossem amputadas mas Linda era contrária a essa opção e eles colocaram de lado a hipótese. Para o resto da vida, e apesar de cerca 30 operações, Porter iria sofrer dores intermináveis nas pernas. O seu remédio foi trabalhar, cada vez em mais composições musicais e sempre apoiado por Linda.
A 20 de Maio de 1954 morre Linda Porter, vítima de enfisema. Devastado pela morte da mulher, e sem o seu apoio, a perna direita de Porter é amputada em 1958. Há quem diga que Porter morreu aqui, pelo menos espiritualmente. Desde então ele nunca mais escreveu uma música e viria a falecer em 15 de Outubro de 1964, deixando para trás uma legião de fãs que ainda hoje escutam os seus temas com uma nostalgia perturbante.
=
Sinfonia Fina
Se Tudo Pode Acontecer
Se tudo pode acontecer
se pode acontecer qualquer coisa
um deserto florescer
uma nuvem cheia não chover
pode alguém aparecer
e acontecer de ser você
um cometa vir ao chão
um relâmpago na escuridão
e a gente caminhando de
mão dada de qualquer maneira
eu quero que esse momento
dure a vida inteira
e além da vida ainda
de manhã no outro dia
se for eu e você
se assim acontecer
se tudo pode acontecer...
Arnaldo Antunes
sábado, 14 de julho de 2007
"Já entrei contigo em comunicação tão forte Que deixei de existir sendo.
Você tornou-se um eu.
É tão dificil falar e dizer coisas que não podem ser ditas.
É tão silencioso.
Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois?
Dificílimo contar: olhei para você fixamente por uns instantes.
Tais momentos são o meu segredo.
Houve o que se chama de comunhão perfeita.
Eu chamo isto de estado agudo de felicidade!"
Clarice Lispector
Se amar é
Numa explosão de imagens e sonhos nunca vistos
Se amar é sorrir ou chorar sem motivo ou razão
Por lembrar de palavras ou sons nunca ditos
Se amar é não poder sentir saudade e apesar de tudo senti-lo
Como algo tão forte
Numa angústia doída no peito
Se amar é fechar os olhos e ter-te ao meu lado
Sentir teu carinho
Teu corpo
Tua presença em meu leito
Se amar é não tendo-te aqui
Sentir-me feliz por apenas saber existires
Se é a certeza de um dia tocar-te
Amar simplesmente sem questionar ou entender este amor
Então eu te amo
Num sentimento único
Jamais sentido
Jamais sonhado
Jamais vivido
Alice Daniel
Poema Nascido Tarde
Quando nasci tinha trinta e nove anos de idade. Poesia é o nome da minha mãe que me teve numa idade avançada. Como sabem, em idades avançadas não se devia ter filhos porque se corre o risco de malformações nos fetos.
A minha mãe foi avisada pelos médicos, mesmo assim correu o risco e eu nasci.Agora tenho mais dois anos.
Quando passeio no jardim escuto as pombas que param para beber no lago do livro de histórias que leem, enquanto eu me escondo dos meus vizinhos que atiram pedras de papel branco, a mando das mães.
Escondo-me porque nasci tarde, com trinta e nove anos, e sinto vergonha dos outros que nasceram antes de mim.
Os pedúnculos das flores que tenho pelo corpo nasceram ocos. Um dia, cheia de curiosidade, quis saber se os das árvores também seriam iguais. Foi quando me acusaram de ter cortado as veias às árvores do parque e elas morreram. Tentei explicar-lhes que só as queria ver como eram por dentro, e depois ia cozê-las com linhas de costura da minha mãe. Mas ninguém me entendeu e consideraram o acto como um defeito de ter nascido tarde. Agora escondo-me por baixo da capa do livro, cheia de ervas, e fico ali até à noite quando sigo as estrelas dos lençóis da minha cama.
Também não poderei frequentar as escolas porque tenho idade avançada.A minha mãe ralha-me por eu ter nascido tarde mas eu não tenho culpa e ela sabe.Um dia tentei agradar-lhe e arranquei uma flor do meu corpo e dei-a para ela ficar feliz, mas ela pisou-a com o pé.
Os médicos dizem que não tenho cura, serei assim toda a vida: o ter nascido tarde.
Um Médico escreveu à minha mãe que eu podia fazer um tratamento intensivo para aprender a fazer poesia, que assim ia aliviar as minhas dores. Disse à minha mãe para me levar a uma clínica de livros e de leituras para fazer fisioterapia aos músculos das minhas flores; ao mesmo tempo que lia, levava choques eléctricos nos olhos e raios infra – vermelhos, por baixo da pele, no sangue.
Nunca mais fui ao tratamento! Mentia à minha mãe e fugia para o mar. Atirava areias à água com as gaivotas. Um dia a minha mãe desconfiou que não fazia os tratamentos e bateu-me, aqui nas costas, com uma pena, onde tenho a marca nas costelas.
Gostava de ter outra mãe que não fosse tão má.
Esta, quando mamo nos bicos das suas letras. Diz que já não tenho idade para mamar.Ela tem razão mas eu não tenho culpa de ter nascido tarde. Com trinta e nove anos tenho mais fome de cores e imagens. É por isso que lhe trinco os bicos, para ir buscar o que ela tem dentro dela. Sei que lhe dói quando faço isso porque ela grita e não me dá mais.
Gostaria de ter nascido como os outros poetas, com sete ou com nove anos de idade, não mais nem menos.
A minha mãe não teve culpa de eu ter nascido tarde. Foi a bruxa que vive no monte, na casa dos partos que adormeceu durante trinta e nove anos. A minha mãe não queria acordá-la mas teve que o fazer porque já não podia estar grávida, mais tempo, porque o mar se soltou rebentado pelas pernas abaixo.
Foi por isso que eu só nasci aos trinta e nove anos.
A minha mãe foi avisada pelos médicos, mesmo assim correu o risco e eu nasci.Agora tenho mais dois anos.
Quando passeio no jardim escuto as pombas que param para beber no lago do livro de histórias que leem, enquanto eu me escondo dos meus vizinhos que atiram pedras de papel branco, a mando das mães.
Escondo-me porque nasci tarde, com trinta e nove anos, e sinto vergonha dos outros que nasceram antes de mim.
Os pedúnculos das flores que tenho pelo corpo nasceram ocos. Um dia, cheia de curiosidade, quis saber se os das árvores também seriam iguais. Foi quando me acusaram de ter cortado as veias às árvores do parque e elas morreram. Tentei explicar-lhes que só as queria ver como eram por dentro, e depois ia cozê-las com linhas de costura da minha mãe. Mas ninguém me entendeu e consideraram o acto como um defeito de ter nascido tarde. Agora escondo-me por baixo da capa do livro, cheia de ervas, e fico ali até à noite quando sigo as estrelas dos lençóis da minha cama.
Também não poderei frequentar as escolas porque tenho idade avançada.A minha mãe ralha-me por eu ter nascido tarde mas eu não tenho culpa e ela sabe.Um dia tentei agradar-lhe e arranquei uma flor do meu corpo e dei-a para ela ficar feliz, mas ela pisou-a com o pé.
Os médicos dizem que não tenho cura, serei assim toda a vida: o ter nascido tarde.
Um Médico escreveu à minha mãe que eu podia fazer um tratamento intensivo para aprender a fazer poesia, que assim ia aliviar as minhas dores. Disse à minha mãe para me levar a uma clínica de livros e de leituras para fazer fisioterapia aos músculos das minhas flores; ao mesmo tempo que lia, levava choques eléctricos nos olhos e raios infra – vermelhos, por baixo da pele, no sangue.
Nunca mais fui ao tratamento! Mentia à minha mãe e fugia para o mar. Atirava areias à água com as gaivotas. Um dia a minha mãe desconfiou que não fazia os tratamentos e bateu-me, aqui nas costas, com uma pena, onde tenho a marca nas costelas.
Gostava de ter outra mãe que não fosse tão má.
Esta, quando mamo nos bicos das suas letras. Diz que já não tenho idade para mamar.Ela tem razão mas eu não tenho culpa de ter nascido tarde. Com trinta e nove anos tenho mais fome de cores e imagens. É por isso que lhe trinco os bicos, para ir buscar o que ela tem dentro dela. Sei que lhe dói quando faço isso porque ela grita e não me dá mais.
Gostaria de ter nascido como os outros poetas, com sete ou com nove anos de idade, não mais nem menos.
A minha mãe não teve culpa de eu ter nascido tarde. Foi a bruxa que vive no monte, na casa dos partos que adormeceu durante trinta e nove anos. A minha mãe não queria acordá-la mas teve que o fazer porque já não podia estar grávida, mais tempo, porque o mar se soltou rebentado pelas pernas abaixo.
Foi por isso que eu só nasci aos trinta e nove anos.
Ana Maria Costa
sexta-feira, 13 de julho de 2007
sei que primeiramente vens pelo meu brilho
e pelo meu desenho de fêmea, mas não sabes que sou alma antiga,
alma guerreira, alma ferida.
Tenho meus medos, fraquezas e fúrias
são tantas as minhas ruas e todas elas se encontram.
Por quais você quer andar, que horas, que lua,
que mulher vais querer?
Carolina Salcides
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