quinta-feira, 6 de julho de 2006

Sentindo o vento,
olhando sem realmente ver, ouvindo sem verdadeiramente escutar.
Ao longe, o grito das gaivotas.Ao perto, as ondas se deixando quebrar nas pedras, deixado um cheiro de mar que enchia os poros e refrescava a alma.
Banhou os olhos de horizonte, limpando-se de "passado, presente e futuro"...
O céu azulava-se límpido,
e o sol, ah, o sol, quente na pele
lembrava um toque leve de dedos por chegar.
Não houve aviso, nem alarme, apenas aquela sensação sedosa, úmida e macia, vibrante no contato vagaroso, que chegou rápido ao coração.Os lábios deslizaram à procura do encontro.Lábios que se tocam, se tateiam.
Esse encontro é chamado
Beijo .

Para atravessar contigo o deserto do mundo.
Para enfrentarmos juntos o terror da morte.
Para ver a verdade, para perder o medo ao lado dos teus passos caminhei.
Por ti deixei meu reino, meu segredo.Minha rápida noite, meu silêncio.
Minha pérola redonda e seu oriente.
Meu espelho, minha vida, minha imagem.
E abandonei os jardins do Paraí­so.
Cá fora à luz sem véu do dia duro.
Sem espelhos vi que estava nua.
E ao descampado se chamava Tempo.
Por isso com os teus gestos me vestiste.
E aprendi a viver em pleno Vento.
Sophia de Mello Breyner Andresen




Cuidadosamente, rodeamo-nos de pedras, ligadas entre si, numa pretensão protetora de forte ou de guarita.

Abrigados dos elementos, ficamos com tão pouco para ver!

Será isso realmente bom, ou será viver pela metade...?


"Olhai os lírios do campo; eles não trabalham nem tecem;
no entanto eu vos digo:
mesmo Salomão, em toda sua glória,
não se vestiu como um deles".
Palavras de Jesus, no Evangelho segundo São Mateus

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Vermelho e Branco


O sangue vermelho do homem branco,
do homem prêto, do homem amarelo.
O sangue é vermelho, é um sangue só.
O leite branco da mulher branca,
da mulher prêta, da mulher amarela.
O leite é branco, é um leite só.
Deus pôs por dentro de homens e mulheres
de aparências tão diferentes,
uma humanidade só:
o mesmo anseio, a mesma fome,
o mesmo sonho, o mesmo pó;
o mesmo sangue vermelho,
da côr da vida, da côr
do amor, e mais:
o mesmo leite branco,
da côr da paz.

José Guilherme de Araújo Jorge

Minha obra

Pinceladas de barro cor da pele cobrem minhas cicatrizes como um carinho.
Todas as manhãs antes de me iludir com a vida,
lavo no escuro adocicado minhas pequenas pupilas e escorrego o sabão nos cílios da pequena boneca.
Cubro a alma com uma pitada de lápis nas sobrancelhas finas,
faço as ficarem bem grossas com o perfil de misteriosa...
Minhas mãos já sabem de cor a forma de cada olheira...
Profundas de tanta chuva que tomou,
é como se cobrisse minha alma todas as manhãs,
é como se a mim só eu conhecesse...
Quando estou definitivamente uma pintura de Basquiat,
olho-me no espelho e o que vejo?
Um touro, uma donzela, um inseto, uma traça, um sonho!
Não sei bem se vejo ou deliro, mas crio coragem e abro a porta.
Quase sempre venta e lacrimeja.
Coloco a bagagem nas costas,
e de costas me olho mais uma vez no espelho.
Sim, agora estou pronta!

Mensageiros do destino me perdoem, tenho pressa, saiam da frente!
Que meu cansaço derrete meu barro e a escultura cai.
Tenho pressa... minha vida é passageira e meu escudo de pele ???, moldado por cicatrizes.
Quando chego em casa, sento, tiro os sapatos, calço minha essência e choro. Quando a obra facial se desfaz, coloco as mãos sobre o rosto e sorrio, acendo uma vela, abro a torneira e lavo a minha alma, agora nua.

Bárbara Paz

Doido e Doído


O homem doido vindo pela calçada,
O olhar doído de quem não tem nada,
As mãos vazias de toda esperança,
Balançando os braços feito criança.
O que você tanto busca, homem doido?
Revira os bolsos e procura, afoito,
A lembrança do que foi, do que ficou
Perdido no passado e não voltou.
O homem doido sonhou que já foi gente
Que nem a gente, e não um demente
À procura do passado e da razão.
Sonhando assim, doído em solidão,
Conhece mais fundo o mundo e a vida
Do que os sãos (que não vêem a saída).


Autor Desconhecido

terça-feira, 4 de julho de 2006



Às vezes, encanto-me...

como um raio de sol

surpreende numa

tarde fria,

ou uma chuva súbita numa

tarde de sol.


Melhor não dizer nada.
Só ficar a olhar.
Elos, entrelaçados, fragilidades diversas sob a inevitável cor azul.
Encontros e enlaces,
imprevisibilidade sob o olhar atento das nuvens.
Tão simples ...
melhor não dizer nada.

Amor e Medo



Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto que nem a mim
mesmo revelo este segredo.

Affonso Romano de Sant`anna