sábado, 26 de maio de 2007

"Sinto sua falta a cada momento
e nela vou conhecendo você melhor,
seu jeito de ser está ampliado, seus defeitos parecem mais nítidos,
suas qualidades ganharam mais cores e tudo em você ficou mais visível,
mostrando até que seu espaço vazio me revira do avesso
e que meu avesso me coloca de frente para você."

Tati Bernardi

sexta-feira, 25 de maio de 2007



As árvores mesmo depois de mortas

Exalam o cheiro do fruto

Que não germinou

Carta de Intenções

Que eu possa respeitar opiniões diferentes da minha. Que eu possa me desculpar antes do ódio. Que eu possa escrever cartas de amor de repente. Que eu possa viajar para adorar a distância.Que eu possa voltar para dizer o que não tive coragem. Que eu possa conversar com estranhos para matar a estranheza.
Que eu possa comprar fiado minha própria fé. Que eu amarre os sapatos dos filhos como se fosse um terço. Que eu pense em meu amor ao atravessar a rua. Que eu possa engolir o vento em cada esquina. Que eu possa ouvir as cigarras de noite. Que eu possa diferenciar as árvores. Que eu erre um caminho para descobrir novas paisagens. Que eu ajude sem questionar. Que eu dê conselhos sem condenar. Que eu não exija demais dos outros. Que eu possa dançar com os pés nos ouvidos. Que eu possa tomar banho de cachoeira. Que eu possa descobrir ervas curativas no corpo de minha mulher. Que eu prepare pratos exóticos para aumentar a fome. Que eu faça sinal para o trem parar. Que eu assobie para chamar a alegria. Que eu possa chorar ao assistir filmes. Que aproveite a luz do corpo para ler de noite. Que eu não seduza para confundir. Que eu seduza para iluminar. Que eu mande flores para meu próprio endereço. Que eu estenda a toalha da mesa como se fosse um lençol. Que eu não sacrifique a confiança pela covardia. Que eu possa repor os pássaros em seus ninhos. Que eu possa devolver os livros que tomei emprestado. Que eu não peça a devolução dos livros que emprestei. Que eu tenha dúvidas, melhor do que certezas. Que a sorte não seja o cartão furado da loteria. Que a poesia não fique na estante mais escondida das livrarias. Que minha mulher possa entender o que nem preciso falar. Que eu cuide das plantas da mão alisando a chuva. Que eu não tenha receio de ser ridículo. Que eu faça amizades falando do tempo. Que eu escreva nos livros o que os livros me escrevem. Que eu possa brincar mais sem contar as horas. Que eu possa puxar os cabelos do vento. Que eu use somente as palavras que tenham sentido. Que eu aceite os conselhos da loucura. Que transforme a raiva em vontade de me entender. Que eu não precise fechar as janelas na sinaleira. Que eu faça aniversário de criança nos meus 34 anos. Que eu me lembre de ser feliz enquanto ainda estou vivo.
=
Fabrício Carpinejar

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Las Cartas de Amor

Las cartas de amor, mi amor
Son en el fondo, ridículas,
Las cartas de amor, cuando hay amor,
Son siempre ridículas.
Porque los que se aman, si en verdad se aman,
Dicen y escriben cosas ridículas,
Porque el amor, el amor verdadero,
Te hace pensar en forma ridícula
Y te convierte finalmente en una persona ridícula
Pero quién alguna vez no ha sido ridículo?
Quién no ha dicho te amo, te adoro, mi cielo, mi sol
Y ha suplicado hasta el ridículo.
Plebeyo, o señor, sabio o bruto,
en cuestiones de amor son todos ridículos
Sólo los que nunca han amado,
los que nunca han creído
Se han salvado de gestos ridículos,
Los que por miedo al ridículo dicen que el amor es algo ridículo
Y viven así en su mundo ridículo,
Todos juntos, sin ningún amor,
Atrapados entre objetos y proyectos ridículos,
hablando de sus triunfos ridículos
Haciendo discursos ridículos, comportándose de un modo ridículo
Vanagloriándose de su machismo ridículo
Ridiculizando el amor con argumentos ridículos.
Pero el amor es sabio no es tonto,
Nunca anida en pensamientos ridículos,
Vuela por sobre sus ideales ridículos
Y se posa únicamente en corazones ridículos
Como el tuyo y el mío, que no se cansan nunca de hacer el ridículo.

=
Fernando Pessoa

Despindo a Alma

"É erótico ver uma mulher que sorri,
que chora, que vacila,
que fica linda sendo sincera,
que fica uma delícia sendo divertida,
que deixa qualquer um maluco sendo inteligente.
Uma mulher que diz o que pensa,
o que sente e o que pretende. "

Martha Medeiros

"Hoje eu acordei sem nada no estômago,
sem nada no coracão, sem ter para onde correr,
sem colo, sem peito, sem ter onde encostar,
sem ter quem culpar.
Hoje eu acordei sem ter quem amar"

Tati Bernardi

O amor é analfabeto


Desde criança, me proponho desafios. Superstições. Teria que correr mais do que o carro para conseguir uma namorada. Caso o pião permanecesse três minutos de pé, passaria de ano na escola. Se acertasse o papel no lixo, eu me transformaria num jogador de futebol. Se a porta estivesse fechada na segunda tranca, receberia um convite para um novo emprego. Se ela olhar ao lado, é que devo insistir com a conversa. Se o telefone tocar quando atravessar na frente daquela casa, é que terei sucesso. Queria provas. Passava todo o dia trancado em mim, conferindo se haveria coincidência entre o que fantasiava e as reações externas. Da janela do trem, da janela do carro, da janela do ônibus, da janela da casa, fazia palavras cruzadas gigantes entre as árvores e a chuva, contando as letras, contando os olhos, contando com a boca a distância de um relâmpago de sua queda. Fui formando convicções a partir de disputas secretas, de apostas que ninguém entenderia, extremamente gratuitas e somente plenas de sentido para uma carência que buscava me livrar.


Transferi a mania de resultados para o relacionamento. Pareço assim um mendigo ansiando algo com o estardalhaço de um milagre. Mas o milagre é imperceptível. Nem faz barulho. Ele abre a porta, não arromba. Qualquer um pode abrir a porta, o milagre tem a mesma energia de uma mão na maçaneta. O milagre é humano. O milagre não usa Deus. O homem usa - infelizmente - Deus. O milagre não emprega nada mais do que a nossa própria força.


O milagre é não condicionar o amor a um entendimento. A uma cerca. A um endereço. Dominar o amor é extingui-lo. Dominar o amor é não compreendê-lo.


O amor é contraditório, não compare as frases, não esprema o suco do que é semente. Não pressione quem você ama com perguntas, esperando que ele responda o que já formulou. Você não está amando, está testando. É repetir o jogo infantil da confirmação de sua expectativa. O amor não nos confirma; na maioria das vezes, nos nega. O amor não termina, desistimos dele. O fim do amor é nossa desistência.


Eu me importo mais com as provas do que com os desejos. Examinando, suspeitando, avaliando o que não é perfeito. Tentando domar com a clareza, assumir o controle do que é destinado a não ter direção. Eliminando os erros com o corretor ortográfico para não chegar à verdade da minha insuficiência. Não aceito ser por mim, fico querendo me resolver por fora.


De tanto que pedi sinais a Deus, eu deixei de me ler. Deus não concede sinais. Deus é analfabeto. Não precisa ler para entender, entende antes da leitura. Ele escuta o que pensamos. Escuta até o que deixamos de pensar. Nós é que precisamos escrever para provar que existimos e ler para ter uma segunda chance.


Deus nos deu o amor para sermos analfabetos e errar a linha.



Fabrício Carpinejar

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Amor não se pede


Se implorar resolvesse, não me importaria.
De joelhos, no milho, em espinhos, agachada, com o cofrinho aparecendo.
Uma loucura qualquer, se ajudasse, eu faria com o maior prazer.
Do ridículo ao medo: pularia pelada de bungee jump.
Mergulharia de cabeça.
Chorar, se desse resultado,
eu acabaria com a seca de qualquer Estado, de qualquer espírito.
Mas amor não se pede, imagine só.
Ei, será que você não pode me olhar com olhos de devoção
porque eu estou aqui quase esmagada com sua presença?
Não, não dá pra dizer isso.
Ei, será que você pode me abraçar como se estivéssemos
caindo de uma ponte
porque eu estou aqui sem chão com sua presença?
Não, você não pode dizer isso.
Ei, será que você pode me beijar como um beijo de final de filme
porque eu estou aqui sem ar, sem vida com a sua presença?
Definitivamente, não, melhor não.
Amor não se pede, é uma pena.
É uma pena correr com pulinhos enganados de felicidade e levar uma rasteira.
É uma pena ter o coração inchado de amar sozinha, olhos inchados de amar sozinha.
Um semblante altista de quem constrói sozinho sonhos.
Mas você não pode, não, eu sei que dá vontade, mas não dá pra ligar e dizer:
Ei, tô sofrendo aqui, vamos parar com essa estupidez de não me amar e vir logo resolver meu problema?
Mas amor, minha querida, não se pede, dá raiva, eu sei.
Raiva dele ter tirado o gosto do mousse de chocolate que você amava tanto.
Raiva dele fazer você comer cinco mousses de chocolate seguidos pra ver se, em algum momento, o gosto volta.
Raiva dele ter tirado as cores bonitas do mundo, a felicidade imensa
em ver crianças sorrindo, a graça na bobeira de um cachorro querendo brincar.
Ele roubou sua leveza mas, por alguma razão, você está vazia.
Mas não dá, nem de brincadeira, pra você ligar pro cara e dizer:
Ei, a vida é curta pra sofrer, volta, volta, volta.
Porque amor, meu amor, não se pede, é triste, eu sei bem.
É triste ver o Sol e não vê-lo se irritar porque seus olhos são claros demais,
são tristes as manhãs que prometem mais um dia sem ele,
são tristes as noites que cumprem a promessa.
É triste respirar sem sentir aquele cheiro que invade e você não olha de lado,
aquele cheiro que acalma a busca.
Aquele cheiro que dá vontade de transar pro resto da vida.
É triste amar tanto e tanto amor não ter proveito.
Tanto amor querendo fazer alguém feliz.
Tanto amor querendo escrever uma história, mas só escrevendo este texto amargurado.
É triste saber que falta alguma coisa e saber que não dá pra
comprar, substituir, esquecer, implorar.
É triste lembrar como eu ria com ele.
Mas amor, você sabe, amor não se pede.
Amor se declara: sabe de uma coisa?
Ele sabe, ele sabe.


Tati Bernardi

Acaso



Não sei se o acaso quis brincar
Ou foi a vida que escolheu
Por ironia fez cruzar
O meu caminho com o teu
Eu nem queria mais sofrer
A agonia da paixão
Nem tinha mais o que esquecer
Vivia em paz na solidão
Mas foi te encontrar
E o futuro chegou como um pressentimento
Meus olhos brilharam, brilharam
No escuro da emoção
Não sei se o acaso quis brincar
Ou foi a vida que escolheu
Por ironia fez cruzar
O teu caminho com o meu


=Abel Silva / Ivan Lins / Pedro Mariano

...em pequeno,
eu costumava maravilhar-me com o facto
de que as letras de um livro fechado não se misturassem
e se perdessem no decorrer da noite.

Jorge Luis Borges

sábado, 19 de maio de 2007

A Flor Eleita


Não sou como a abelha saqueadora
que vai sugar o mel de uma flor,
e depois de outra flor.
Sou como o besouro
que se enclausura no seio de uma única rosa
e vive nela até que ela feche as pétalas sobre ele;
e abafado neste aperto supremo,
morre entre os braços da flor que elegeu.
=
Roger Martin du Gard


Por onde anda a gente quando dorme
E se só estivemos no leito
por que acordar deste jeito
com este olhar de pouco assunto?
Pra onde vai meu ser noturno
pra me deixar assim soturno
e por que não me leva junto?
=
Luis Fernando Veríssimo
=


Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o leite, a mãe,
o amor,
=
que te procuram.
=
Herberto Hélder

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Música para o Coração

http://www.claudiamidis.net/midis3/GalCosta_RuasDeOutono.mid


Nas ruas de outono, os meus passos vão ficar
E todo abandono que eu sentia, vai passar
As folhas pelo chão que um dia o vento vai levar
Meus olhos só verão que tudo poderá mudar
Eu voltei por entre as flores da estrada
Pra dizer que sem você não há mais nada
Quero ter você bem mais que perto
Com você eu sinto o céu aberto
Daria pra escrever um livro, se eu fosse contar
Tudo que passei antes de te encontrar
Pego sua mão e peço pra me escutar
Seu olhar me diz que você quer me acompanhar
Eu voltei por entre as flores da estrada
Pra dizer que sem você não há mais nada...

Ana Carolina e Antonio Villeroy

O Vento

Por mais que tente, o vento
não consegue adormecer
se não tiver nada para ler.
Seja uma folha de tília,
de bambu ou buganvília.
É por isso que o vento
arrasta as folhas consigo,
até encontrar um abrigo,
onde possa adormecer.
Arrastou até a folha,
onde eu estava a escrever!

Jorge Sousa Braga

"Os acontecimentos não mudam as pessoas.
O cara otimista e bem-humorado será,
seis meses depois de um acidente, um otimista numa cadeira de rodas.
Já o cara chato e arrogante será um arrogante com piscina e carro novo,
depois de ganhar na loteria."

Trecho do filme "Antes do Pôr-do-Sol"

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Poema do Menino Jesus

=
Num meio-dia de fim de Primavera
Eu tive um sonho como uma fotografia:
Vi Jesus Cristo descer à Terra.
Ele veio pela encosta de um monte,
Mas era outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
A arrancar flores para deitar fora,
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Ele tinha fugido do céu.
Era nosso demais pra fingir-se
De Segunda pessoa da Trindade.

Um dia que Deus estava dormindo
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi até a caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro Ele fez com que ninguém soubesse que Ele tinha fugido;
Com o segundo Ele se criou eternamente humano e menino;
E com o terceiro Ele criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois Ele fugiu para o Sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje Ele vive na minha aldeia, comigo.
É uma criança bonita, de riso natural.
Limpa o nariz com o braço direito,
Chapinha nas poças d'água,
Colhe as flores, gosta delas, esquece.
Atira pedras aos burros,
Colhe as frutas nos pomares,
E foge a chorar e a gritar dos cães.
Só porque sabe que elas não gostam,
E toda gente acha graça,
Ele corre atrás das raparigas
Que levam as bilhas na cabeça
E levanta-lhes a saia.
=
A mim, Ele me ensinou tudo.
Ele me ensinou a olhar para as coisas.
Ele me aponta todas as cores que há nas flores
E me mostra como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
=
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro.
Vivemos juntos os dois
Com um acordo íntimo,
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer nós brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa.
Graves, como convém a um Deus e a um poeta.
Como se cada pedra
Fosse todo o Universo
E fosse por isso um perigo muito grande
Deixá-la cair no chão.
=
Depois eu lhe conto histórias das coisas só dos homens.
E Ele sorri, porque tudo é incrível.
Ele ri dos reis e dos que não são reis.
E tem pena de ouvir falar das guerras
E dos comércios.
=
Depois Ele adormece e eu
O levo no colo para dentro da minha casa,
Deito-o na minha cama, despindo-o lentamente,
Como seguindo um ritual todo humano
E todo materno até Ele estar nu.
=
Ele dorme dentro da minha alma.
Às vezes Ele acorda de noite,
Brinca com meus sonhos.
Vira uns de perna pro ar,
Põe uns por cima dos outros,
E bate palmas, sozinho,
Sorrindo para os meus sonhos.
=
Quando eu morrer, Filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno,
Pega-me Tu ao colo,
Leva-me para dentro a Tua casa.
Deita-me na Tua cama.
Despe o meu ser, cansado e humano.
Conta-me histórias caso eu acorde
Para eu tornar a adormecer,
E dá-me sonhos Teus para eu brincar.

.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?


Alberto Caeiro - Heterônimo de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa e seus Heterônimos

Nascido em Lisboa, no dia 13 de junho de 1888.

Adquiriu o gosto pela poesia lendo poetas de língua inglesa.
Matricula-se, então, no Curso Superior de Letras, que logo abandona, e entra em contato com os grandes escritores da língua portuguesa.
Fernando Pessoa nunca teve, em vida, o reconhecimento que merecia.
Viveu modestamente, em relativa obscuridade. Em vida, teve apenas dois livros publicados: Antinous e 35 Sonnets ambos em 1918.
Desde cedo, Fernando Pessoa inventara seus companheiros.
Imagina os heterônimos Charles Robert Anon, H. M. F. Lecher e Alexander Search e outras figuras menores.
Mas seria no dia 8 de março de 1914 que os heterônimos começariam a aparecer com toda a força. Neste dia, Pessoa escreve, de uma só vez, os 49 poemas de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro.
Escreve também os seis poemas de Chuva Oblíqua, que assina com seu próprio nome.
Logo, inventaria Álvaro de Campos e, em junho do mesmo ano, Ricardo Reis.
Um semi-heterônimo de Pessoa, Bernardo Soares, só em 1982 teve sua obra, O Livro do Desassossego, composta por fragmentos de prosa poética, publicada.
No dia 30 de novembro de 1935, Fernando Pessoa morre de cirrose hepática.
Sua última frase foi escrita em inglês:

“I know not what tomorrow will bring” ou
Eu não sei o que o amanhã trará”.
=
O amanhã trouxe para Fernando Pessoa uma admiração crescente.
Suas obras foram aos poucos sendo publicadas e ele é considerado hoje, ao lado de Camões, um dos dois maiores poetas portugueses de todos os tempos.
Nenhum poeta, em língua portuguesa, obteve tanto prestígio, e o obscuro e modesto lisboeta tornou-se, assim, um nome importante em todo o mundo.
Graças ao poder da palavra. Graças à magia da poesia.

Heterônimos
Mais do que meros pseudônimos, outros nomes com os quais um autor assina sua obra, os heterônimos são invenções de personagens completos, que têm uma biografia própria, estilos literários diferenciados, e que produzem uma obra paralela à do seu criador.
-
Resumo do texto de Frederico Barbosa
=

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Agora eu estou aqui,
querendo que todos os amores do mundo durem para sempre,
e que nenês nasçam, e que árvores cresçam,
e que os desejos das nossas sombras não nos traiam.
Pode parecer maluco, mas todas as minhas súplicas
para que você desista de mim é um jeito maluco
de pedir que você não desista nunca.

Tati Bernardi
=


...que pode uma boca esperar senão outra boca?"


Eugénio de Andrade

"Para aqueles que viajam, elas são guias ;
para outros, não são senão pequenas luzes;
para os sábios, constituem-se em desafiantes problemas;
para os homens de negócios podem ser de ouro.
Todas essas estrelas se calam.
Mas tu terás uma estrela diferente
porque eu habitei numa delas e, ao rir,
será para ti com o se todas as estrelas rissem também
e tu terás estrelas que sabem rir.
Teus amigos se surpreenderão
vendo-te olhar o céu e tu dirás.
Ah! É verdade, as estrelas me fazem sempre rir."

Saint Exupéry
=

Despertar

É um pássaro,
é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave,
água no mar.

Eugénio de Andrade
=

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Estar sozinho

Estar sozinho é engraçado, louco, angustiante, libertário e triste,
tal qual estar com alguém.
No entanto, estar sozinho é absolutamente o oposto de estar com alguém.
Estar sozinho é fechar as mãos no nada quando se atravessa a rua correndo e não se tem uma mão para segurar.
É acordar sem saber o que será do dia porque planejar sozinho dá preguiça
A vida simplesmente acontece para quem está sozinho, às vezes sem que a gente perceba, pois é mais fácil ter noção de si mesmo através de outra pessoa.
É o doce que substitui mal e amargamente o sexo.
Estar sozinho, ou estar sozinha, pode acontecer com qualquer um.
E você torce para que aconteça com a sua melhor amiga, ou com aquele homem que você gostaria de experimentar como uma pílula para a sua solidão.
Estar sozinha é não suportar ouvir a palavra solidão porque ela faz sentido.
É conferir a caixa de e-mails com uma freqüência que beira a compulsão.
É chorar do nada. É acordar do nada. É morrer de medo do nada que fica no estômago.
Estar sozinho é uma coisa física, ou melhor, é a falta dela.
Você se sente oco por dentro, por isso aquele respiro profundo de lamentação.
Quando chove, venta, escurece, e você está sozinho, você lembra de Deus
e do quanto é pequeno.
Estar sozinho é detestar ficar em casa.
Ficar em casa sozinho, quando se está sozinho, é muita solidão.
É estar pronta para algo novo e não agüentar mais dias iguais.
É ocupar a vida dos outros com reclamações, lamentações, dúvidas e carências.

Resumindo:
estar sozinho é triste, enche o saco dos outros e deve fazer mal para a saúde.

Tati Bernardi
=

"Quando estou longe, quero ficar perto
Quando estou perto, quero ficar dentro
Quando estou dentro, quero ficar mudo
Quando estou mudo, quero dizer tudo"

Itamar Assumpção

Os teus pés

"(...)
Mas se amo os teus pés
é só porque andaram sobre a terra
e sobre o vento
e sobre a água,
até me encontrarem."
-
Pablo Neruda
=

"Toco sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca,
vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão,
como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse,
e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar.
Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo,
a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas,
com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto,
e que por um acaso que não procuro compreender coincide com a sua boca,
que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope,
olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores,
se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os ciclopes se olham,
respirando confundidos, as bocas se encontram e lutam debilmente,
mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes,
brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem
com um perfume antigo e um grande silêncio.
Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo,
acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo,
enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores,
de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos,
a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego,
essa instantânea morte é bela.
E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura,
e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água. "

Júlio Cortazar

=

domingo, 13 de maio de 2007


A música é capaz de reproduzir em sua forma real
a dor que dilacera a alma
e o sorriso que inebria
-
Ludwig van Beethoven

Quando o tempo se libertar dos dias,

quando, sem horas alvas ou tardias,

o vir passar por mim sem me inquietar,

saberei que é a altura, que é o tempo de

poder viver a essência do momento.

Terei chegado aonde quero chegar.
--
João Tunes


Um rio que, antes de o ser, foi gota de água

que teve o sonho de ir mais longe, de ser mar

e, assim, fugir à solidão, à míngua, à mágoa

de ser salpico frio ou lágrima a escaldar.


João Tunes
-
-

sábado, 12 de maio de 2007

O Amor e seu Tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.


Carlos Drummond de Andrade
---
---

O Amor Maduro

O amor maduro não é menor em intensidade.
Ele é apenas silencioso.
Não é menor em extensão.
É mais definido colorido e poetizado.
Não carece de demonstrações:
Presenteia com a verdade do sentimento.
Não precisa de presenças exigidas:
Amplia-se com as ausências significantes.
O amor maduro tem e quer problemas, sim, como tudo.
Mas vive dos problemas da felicidade.
Problemas da felicidade são formas
trabalhosas de construir o bem, o prazer.
Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.
Na felicidade está o encontro de peles, o ficar com o gosto da boca
e do cheiro do outro
está a compreensão antecipada, a adivinhação,
o presente de valor interior, a emoção vivida em conjunto,
os discursos silenciosos da percepção, o prazer de conviver,
o equilíbrio de carne e de espírito.
O amor maduro é a valorização do melhor do outro
e a relação com a parte salva de cada pessoa.
Ele vive do que não morreu,
mesmo tendo ficado para depois,
vive do que fermentou criando dimensões novas
para sentimentos antigos,
jardins abandonados, cheios de sementes.
Ele não pede, tem.
Não reivindica, consegue.
Não percebe, recebe.
Não exige, oferece.
Não pergunta, adivinha.
Existe, para fazer feliz.
O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão,
basta-se com o todo do pouco.
Não precisa e nem quer nada do muito.
Está relacionado com a vida e por isso mesmo é incompleto,
por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso.
É feito de compreensão, música e mistério.
É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança.
É o sol de outono: nítido, mas doce.
Luminoso, sem ofuscar.
Suave, mas definido.
Discreto, mas certo.

Arthur da Távola

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Encha o peito com mais de trezentos suspiros,
quando estiver bem levinho,
solte as amarras
e flutue.

Rita Apoena

Uma amiga encontra outra sentada olhando fixamente à frente e pergunta:

-O que está olhando?
- Tudo!

A outra senta ao seu lado.

-Lindo!
-Viu?


As vezes é só o que precisamos fazer, olhar,
para assim poder de fato ver.

terça-feira, 8 de maio de 2007

No todo de ti
abracei os teus olhos
beijei o teu sorriso
acariciei a alegria
do teu jeito de andar
No todo de ti
cantei a tua poesia
espiei os teus labirintos
cheirei as pétalas
vindas dum sonho de voar
Moveram-se as nuvens
no escuro frio dos céus
e respirei-te ali
doce e lentamenteno todo de ti
...
=
Amaral Nascimento
==

Amor

Abraçar-te
Deixar o silêncio falar
E nesse abraço
Reunimos as nossas auras naquilo que sempre fomos!

=

Porque me despes completamente
Sem que eu nem perceba
E quando nua
Por incrível que pareçasou mais pura
Porque vou ao teu encontro
Despojada de critérios
Liberto os mistérios
Sem perder o encanto
Do prazer
Porque
Quando nua
Sou única
E exclusivamente
Tua

Isabel Machado

Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
=
Sohia de Mello Breyner
=

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Sem inspiração

Assim...
Como se o espaço vazio dentro da minha mente ocupasse
todos os meus pensamentos.
Mas felizmente posso ver...
Ouvir...
E sentir...
--
---
Ouvindo Kate Havanevik - Nowhere Warm

domingo, 6 de maio de 2007

Órion e Artemis


Órion era um gigante caçador.
Recebeu de seu pai (Poseidon) o dom de andar sobre as águas e da
mãe (Gaia) o tamanho gigantesco.
Em uma de suas viagens, conheceu Artemis (deusa da caça), por quem se apaixonou.
Amor esse que gerou ciúmes em Apolo, irmão de Artemis.Que para dar fim em Órion
resolveu desafia - la em uma disputa de flechas.
Apolo propôs que o vencedor seria quem atingisse um pequeno ponto no mar.
Sem saber que era Órion andando sobre as águas, Artemis aceitou.
A primeira a atirar, a primeira a acertar, vencedora da disputa.

Na manhã seguinte andando pela praia viu seu amado morto, e reconheceu a flecha.
Incorformada pediu a seu pai (Zeus) que o colocasse no céu para que todas as noites pudesse olhar o amado.


Essa é uma das versões .
Em outra Órion teria sido morto por um escorpião.
Pra muitos enviado por Apolo, para outros,
enviado pela própria Artemis.
A morte por uma picada de escorpião é a mais aceita,
já que ao lado da Constelação de Órion há um escorpião.
Hoje, se olhar para o céu basta localizar "As três Marias",
que fazem parte do cinturão de Órion.
Mais acima duas outras estrelas marcam os ombros
e mais abaixo
uma o joelho e outra o pé de Órion.

Espatódea

"Minha cor
Minha flor
Minha cara
Sol do dia
Nuvem branca
Sem sardas
Não sei quanto o mundo é "bão"
Mas ele está melhor
Desde que você chegou
E explicou
O mundo pra mim"
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Trecho da música Espatódea de Nando Reis, feita pra sua quarta filha, Zoe .
Dos cinco filhos a única ruiva, como ele.
Espatódea, árvore de grande porte, bem comum no estado de
São Paulo.
Floresce o ano inteiro e sua flor é de cor laranja.
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sábado, 5 de maio de 2007

A Noite pela Manhã

Quando a manhã vier
Com um sol maduro
Ofertando beijos
Aos órfaos da ternura
Quando a manhã vier
Em apoteose de luz
A semear no vento
Risos de alegria
Quando a manhã vier
Definitivamente
Em alvorecer roseo
De paz e tranquilidade
De mãos nas mãos
Saberemos chegado o nosso dia.

Jofre Rocha

Moldada em linhas de estética humana.
Em material de aparência grandiosa
Mas de frágil consistência e firmeza
Sou barro
Sem voz,
Colocada no chão sinuoso da terra.

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner

Perfuma-me a alma
A minha pele cheira a flores
É assim que permanece depois de mergulhares no meu corpo
Que transformas em jardim cada vez que me ama...
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sexta-feira, 4 de maio de 2007

O pior de errar um caminho,
é só perceber milhares de quilômetros depois.
B.P.

E eu te daria o mundo se pudesse...
Eu traria uma nuvem...
O sol...
Escondido no punho cerrado, pra você...
Pra fazer surpresa...

B.P.

O tempo nada mais é, do que o espaço medido em horas,
do seu nascer até o dia da sua morte.
É apenas uma linha reta entre dois pontos no espaço.
B.P.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Vem

Podes vir se quiseres
Quando te aprouver vem
Quando vieres não te esqueças de trazer
Um peso de lágrima
Um nadinha de água em cada olho
Um sorriso
Um riso enfeitando a boca
E nas pernas em cada tornozelo
Põe soquetes meias pequenas de algodão
E faz tranças no cabelo
Põe laços
Um de cada lado
Dois lacinhos encarnados
Nos ombros põe um xale
Um xale que caias
E desfaça
No meu
No nosso abraço
Vem quando te aprouver
Mas não te esqueças
Vem
A.D.

Quem sou eu
Um dia a ternura do mar beijou os olhos da lua.
E eu nasci.
Sou filha do mar e da lua.
Quando olho para o mundo
Não sei se sou sol
Se sou lua
Não sei se sou mar
Se sou terra
Não sei se sou flor
Se sou pedra
Pondo a maré-cheia nos meus olhos
Eu seria mar
Pondo uma flor na minha mão
Eu seria terra
Mas a terra e o mar
São dois bocados bonitos do mundo
Depois,
Seria só pegar nos cadilhos da lua
E seria o ser que gostaria de ser.
Chá de Hortelã

"Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.
Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz".

Fiama Hasse Pais Brandão