sexta-feira, 25 de maio de 2007

Carta de Intenções

Que eu possa respeitar opiniões diferentes da minha. Que eu possa me desculpar antes do ódio. Que eu possa escrever cartas de amor de repente. Que eu possa viajar para adorar a distância.Que eu possa voltar para dizer o que não tive coragem. Que eu possa conversar com estranhos para matar a estranheza.
Que eu possa comprar fiado minha própria fé. Que eu amarre os sapatos dos filhos como se fosse um terço. Que eu pense em meu amor ao atravessar a rua. Que eu possa engolir o vento em cada esquina. Que eu possa ouvir as cigarras de noite. Que eu possa diferenciar as árvores. Que eu erre um caminho para descobrir novas paisagens. Que eu ajude sem questionar. Que eu dê conselhos sem condenar. Que eu não exija demais dos outros. Que eu possa dançar com os pés nos ouvidos. Que eu possa tomar banho de cachoeira. Que eu possa descobrir ervas curativas no corpo de minha mulher. Que eu prepare pratos exóticos para aumentar a fome. Que eu faça sinal para o trem parar. Que eu assobie para chamar a alegria. Que eu possa chorar ao assistir filmes. Que aproveite a luz do corpo para ler de noite. Que eu não seduza para confundir. Que eu seduza para iluminar. Que eu mande flores para meu próprio endereço. Que eu estenda a toalha da mesa como se fosse um lençol. Que eu não sacrifique a confiança pela covardia. Que eu possa repor os pássaros em seus ninhos. Que eu possa devolver os livros que tomei emprestado. Que eu não peça a devolução dos livros que emprestei. Que eu tenha dúvidas, melhor do que certezas. Que a sorte não seja o cartão furado da loteria. Que a poesia não fique na estante mais escondida das livrarias. Que minha mulher possa entender o que nem preciso falar. Que eu cuide das plantas da mão alisando a chuva. Que eu não tenha receio de ser ridículo. Que eu faça amizades falando do tempo. Que eu escreva nos livros o que os livros me escrevem. Que eu possa brincar mais sem contar as horas. Que eu possa puxar os cabelos do vento. Que eu use somente as palavras que tenham sentido. Que eu aceite os conselhos da loucura. Que transforme a raiva em vontade de me entender. Que eu não precise fechar as janelas na sinaleira. Que eu faça aniversário de criança nos meus 34 anos. Que eu me lembre de ser feliz enquanto ainda estou vivo.
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Fabrício Carpinejar

1 comentário:

Carlos disse...

Que eu possa sempre ter lindos lugares, como este, para navegar.

Prof. Carlos